Crianças crescem num piscar de olhos. Ao perceber a velocidade com que a filha, Alice (que completa 3 anos em agosto), ia crescendo e “perdendo” suas roupinhas, Polly Ramos, 35, teve um estalo e criou a Mi, uma marca de moda infantil de Goiânia em que cada peça traz um segredo: uma sobra de tecido no forro que pode ser descosturada, esticando o seu tamanho.

Contando assim, parece foi tudo vapt-vupt. Porém, como muitas trajetórias, a da Polly teve os seus desvios. Ela diz que virou estilista “por observação ou absorção do conhecimento”, pois cresceu vendo a mãe costurando vestidos de noiva para a loja da família, que aluga roupas para festas. Na hora de escolher uma carreira, Polly cravou “Fisioterapia” no vestibular. Formada, montou seu consultório. Mas, dois anos depois, reconheceu que estava infeliz na profissão.

Polly queria empreender. Inspirada pelo negócio familiar, ela imaginou investir em roupas para festas de casamento, mas enfocando em um nicho específico. Por meio de uma paciente da clínica, soube de um ponto comercial disponível numa “rua das noivas” da capital goiana. Chamou o namorado (hoje marido), o publicitário Eduardo Espiridião, para embarcar na empreitada.

Nascia assim, em 2009, a primeira “filha” dos dois, a Maria Amora, uma loja para locação de vestidos para damas de honra. “Geralmente, as lojas de daminha estão dentro das lojas de noivas, não são a prioridade. Por isso, abrimos um espaço pensado para valorizá-las”, diz Polly.

O capital para abertura do negócio veio de um empréstimo da família — e quase foi insuficiente para abrir as portas.  A loja de noivas da mãe, que virou sua “concorrente” na cidade, cedeu as primeiras peças para locação. Após o começo difícil, Polly foi aprendendo o ofício na prática e aprimorou o seu conhecimento com cursos, um deles pelo Instituto Marangoni, escola de moda em design onde aprendeu mais sobre desenhar peças e planejar coleções.

Em 2016, nasceu Alice, filha dela e de Eduardo. Polly se deu oito meses de licença-maternidade. Nesse período, afastada do dia a dia, começou a olhar com mais calma para uma demanda antiga dos clientes da Maria Amora, que já vinham pedindo modelos de vestidos de festa para crianças que fossem além das peças exclusivas para daminhas de honra em casamentos.

“Comecei a desenhar vestidos para minha filha usar nas ‘fotos do mês’. Aí eu percebi que uma criança de um mês para o outro cresce de tal forma que eu fazia o vestido só para ela tirar as fotos”

As “fotos do mês” são registradas para se acompanhar o desenvolvimento das crianças; algumas famílias contratam fotógrafos profissionais. No caso, era Eduardo quem clicava a filha. E a rapidez com que ela crescia ficou evidente.

Polly começou a quebrar a cabeça para desenvolver peças mais duradouras, para resolver um problema de todos os pais. A solução veio da bagagem adquirida nos anos à frente da Maria Amora. Vestidos de daminha de honra para locação precisam atender a crianças de vários tamanhos, por isso contam com sobras de tecido ajustadas conforme as medidas da menina que for usar a peça.

Ao retomar as rédeas da operação da loja, Polly estava decidida a lançar uma nova marca. O casal de empreendedores contratou então uma consultoria para aprender um novo negócio: entender o desenvolvimento de coleções, tempo de produção das peças, a formação de preços, contratação de fornecedores… Enfim, como atuar com uma marca de vendas de roupas infantis.

A Mi tem peças para crianças de 1 a 12 anos. Os vestidos, shorts, jardineiras e camisas vestem até um tamanho a mais.

Eles investiram 70 mil reais na contratação da consultoria e em reformas na loja Maria Amora, para que pudesse abrigar uma seção com as novas peças. Naquele momento, os novos modelos ainda eram concebidos como vestidos de festa. Em abril de 2018, Polly apresentou a nova coleção no Pitanga, evento paulistano de moda e design dedicado ao público infantil. As peças já traziam uma sobra de forro que permitiam aumentar o tamanho.

“A primeira coleção foi muito bem aceita, mas para um público que a gente não se identificava, que eram pessoas que compravam o vestido só para uma vez. Então, para que o vestido cresceria?”, diz Polly.

A empreendedora repensou o foco. Por que se restringir às roupas para ocasiões especiais? As peças deveriam ser de uso diário, com um estilo mais simples, minimalista, assim como ela buscava para a própria filha. O minimalismo, aliás, acabou inspirando o nome da nova marca: Mi.

“A gente pivotou ao encontrar o conceito em que acreditávamos. Mudamos a identidade visual, mudamos tudo quando vimos um estilo para usar no dia a dia da nossa filha”

Os tecidos mais sofisticados, como cetim e tafetá, deram lugar a algodão orgânico, linho e poliéster produzido a partir de garrafas PET. Cada peça tem uma sobra de tecido no forro. Conforme a criança cresce, uma linha é descosturada e, assim, a roupa ganha alguns centímetros no comprimento. Um vestido 2 anos, por exemplo, se transforma em “outro” de tamanho 4 anos.

“Em 10 minutos, mesmo quem não sabe costurar consegue fazer ‘crescer’ o vestido. Ele tem uma sobra no forro com uma costura de ‘fora a fora’, basta cortar um pedaço da linha e abre a costura. Assim, o restante da peça aparece para fora da costura”, conta.  A exceção são as camisas e tops, que trazem um elástico fino na lateral da peça, que estica até um tamanho a mais para acompanhar o crescimento da menina.

A Mi tem apenas roupas femininas, de 1 a 12 anos. O estilo casual, combinado à técnica de expandir o tamanho no comprimento, resultou em peças mais duradouras, que vão contra uma lógica de consumo desenfreado. Por isso, Polly aposta em modelos lisos, com pouca estampa e cores mais básicas para facilitar a combinação com as roupas que a menina já tenha no armário.

Quando voltou ao Pitanga, em setembro do mesmo ano, as peças já estavam com uma cara nova. Assim, Polly retomou a ideia de lançar uma nova marca, pois já estava claro que o novo negócio merecia um nome próprio, independente.

A virada para a marca Mi ocorreu em fevereiro de 2019. De lá para cá, a loja já aumentou em 30% o faturamento. A marca funciona no mesmo espaço que a Maria Amora, em Goiânia, mas está presente no Brasil inteiro via e-commerce, que já representa 25% das vendas.

Polly e Eduardo também operam no atacado e já levaram a Mi para lojas parceiras em cidades como Brasília, Belo Horizonte, Cuiabá e João Pessoa. A ideia é fincar presença em 14 cidades do país até o fim do ano. E assim, espalhar a proposta da marca:

“Estimulamos o consumo consciente. A pessoa tem que pensar antes de comprar: ‘Será que preciso desse vestido? Com essa cor?’ Ela precisa olhar o que já tem antes de decidir pela compra.”

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