O embrião do que hoje é a Lumos Cultural, uma clínica médica e espaço de oficinas para mães, pais e crianças, começou no WhatsApp. É comum, hoje em dia, muitos pais acionarem os médicos por mensagens na rede social para tirar dúvidas sobre alguns cuidados com seus bebês. Mas não foi bem assim que o negócio da pediatra Vânia Gato, 35, surgiu.

Durante suas consultas, ao ver a solidão das mães no pós-parto, ela teve a ideia de reunir em um grupo virtual todas as mulheres atendidas naquele mês. “Eu ouvia várias queixas e queria, de alguma maneira, ajudar aquelas mulheres.” Em vez de ficar apenas na troca de mensagens, decidiu organizar uma reunião presencial entre as pacientes que tinham se tornado mães recentemente. O encontro ocorreu no salão de festas do prédio de uma delas.

“Foram 22 mães de bebês recém-nascidos que sentaram em roda para trocar experiências. Depois, elas mantiveram contato, começaram a passear juntas, apoiar umas às outras”

Após três meses, um segundo grupo foi criado (hoje são 17!). Vânia conta da importância dessa rede para fortalecer as mulheres e sua autoestima em um momento de extrema dedicação ao bebê. “Uma dizia que queria fazer unha, mas não tinha tempo. Outra falava que conhecia uma manicure que ia em casa. Aí combinavam na casa de uma delas e ia um grupo. Uma segurava o bebê da outra para poderem passar o esmalte.”

Apenas quando chegou ao quarto grupo de WhatsApp, Vânia percebeu que queria ter um espaço fixo para promover os encontros presenciais — sem precisar mais ir atrás de salões de festas ou espaços de coworking. Em paralelo, ela acreditava que a sala comercial “caixinha de fósforo” em que atendia na Avenida Paulista não trazia o aconchego que aquelas mães precisavam nas consultas.

A médica queria encontrar uma casa na rua Cardoso de Almeida, em Perdizes, na Zona Oeste paulistana, onde já vivia a maior parte de suas pacientes. Detalhe: a casa deveria ser térrea e com quintal. “Sonho não tem filtro”, diz, sobre a solicitação super específica que fazia aos corretores imobiliários. Depois de nove meses de busca (uma gestação!), encontrou enfim o local perfeito.

Assim, no dia 3 de outubro de 2016, ela inaugurou a Lumos Cultural, que conta com 35 profissionais de dez especialidades diferentes, entre obstetras, pediatras, fonoaudiólogos, psicólogos e psiquiatras. Eles trabalham em sete salas da casa, enquanto o salão principal e o quintal recebem os encontros, oficinas e palestras voltados para as mães e também os pais.

O espaço acolhe cinco grupos gratuitos. Um é o de gestantes, outro é o grupo de amamentação, um terceiro é o de perdas e lutos perinatais (para pais que perderam bebês na gestação ou logo após o nascimento). Há ainda o Powerpério, uma roda de conversa semanal, mediada por uma psicóloga, para as mães compartilharem suas vivências do puerpério, como é chamado o período pós-parto. E o Grupo Terapêutico de Homens, mediado pelo psicólogo da família Alexandre Coimbra Amaral, em que os participantes dividem suas dores, alegrias e angústias paternas.

A Lumos ainda oferece cursos de formação para profissionais do aleitamento materno e workshops e oficinas pagos para famílias. O Ambulatório de Introdução Alimentar, agendado para a manhã de 28 junho, custará 150 reais. No mesmo dia, à tarde, haverá um workshop de Amamentação e Volta ao Trabalho, com Kely de Carvalho, fonoaudióloga especializada na área (180 reais).

Há algumas atividades voltadas a crianças de 0 a 2 anos, como a oficina de pães para bebês. A maior parte da agenda, porém, é mesmo direcionada aos pais, com temáticas como criação com apego, disciplina positiva, comunicação não-violenta e coaching para mulheres e mães. Ao todo, entre pagos e gratuitos, são cerca de 30 eventos mensais.

UMA CLÍNICA MÉDICA ATIVISTA

O foco da Lumos, segundo Vânia, são as novas famílias que se formam, em suas diferentes configurações, acolhendo inclusive casais gays e mães solo (aquelas que criam os filhos sozinhas), por exemplo. A pediatra e empresária se orgulha de um caso, o tratamento para estimular a lactação de uma mulher que seria mãe, enquanto quem estava biologicamente grávida era a sua companheira.

“Temos posicionamento político. Não fizemos campanha para candidato, mas defendemos a democracia e o direito infantil. Se há um debate no momento, como o uso de armas, chamamos um psicólogo para falar sobre o efeito disso para as crianças”

A Lumos também realiza a Semana da Consciência Negra, em novembro, com rodas de conversas comandadas por profissionais negros da casa sobre como criar crianças livres do racismo. No ano passado, organizou uma exposição de fotografias de mulheres amamentando em espaços públicos da cidade, em defesa desse direito. Até hoje, o espaço promoveu cinco edições de uma feira de empreendedorismo materno, como forma de apoio às mães que abrem seus negócios.

O cuidado com os pais, segundo a pediatra, é o que faz a Lumos ser diferente de outras clínicas médicas que também promovem oficinas e eventos em São Paulo (entre as inspirações, ela cita a Casa Curumim e a Casa Moara, que segundo Vânia seriam mais voltadas às gestantes e às crianças).

“Tudo que envolve maternidade, do parto com respeito e das novas formas de parentalidade, é causa nossa. Queremos chamar as famílias para reflexões, para ver o novo”

Quem escuta a empreendedora não imagina que ela um dia já foi uma pediatra “tradicional”, nas suas palavras. Nascida em Belém do Pará, onde cursou Medicina em uma universidade estadual, Vânia veio para São Paulo fazer residência médica em Pediatria e Neonatologia na Santa Casa de Misericórdia. “Seguia a medicina protocolar, olhando pouco para a história individual daquelas mulheres.”

Um dos consultórios pediátricos da Lumos. Ao todo são dez salas sublocadas para profissionais de saúde. Essa é a maior fonte de faturamento do espaço (foto: Ju Vasconcelos).

Nos dois anos de residência, trabalhou na UTI Neonatal da Santa Casa, onde cuidava de crianças em situação de risco. Assim, a maioria delas havia nascido de cesarianas. Vânia tinha pouco contato com parto normal. “Depois comecei a me desconstruir, passei a me interessar pela humanização do parto [que coloca a mulher como protagonista do processo e dá prioridade aos partos naturais] e a atender com equipes que seguiam esses preceitos”, diz a médica. Mas foi preciso um “cutucão” de uma colega obstetra para transformar de vez sua mentalidade.

Vânia estava em uma sala de parto, o bebê acabara de nascer. Ela ficou estupefata quando a obstetra entregou a criança primeiramente à mãe, e não à pediatra — no caso, ela. Achou aquilo uma “falta de respeito”.

Ao contar o caso a uma colega, também médica, esta lhe deu um puxão de orelha: “O bebê é da mãe, não seu”. A partir dali, Vânia repensou seus conceitos em relação ao parto, nascimento e vida familiar. E veio, então, toda a história que desembocou na Lumos e fez com que assumisse uma nova postura.

MÉDICA, ADMINISTRADORA DE GRUPOS DE WHATSAPP E EMPREENDEDORA

Quando Vânia decidiu abrir a Lumos, a primeira providência foi contratar um consultor financeiro. “Fiz um plano de negócios, vi quanto dinheiro tinha, quanto gastaria não somente no aluguel, mas na manutenção da casa.” A pediatra optou por tocar o projeto sem sócios.

“Queria que a ideia fosse exatamente o que estava na minha cabeça e resolvi assumir as consequências disso sozinha”

Ela pegou as economias que havia juntado com seu trabalho em consultório e hospitais e investiu 80 mil reais para iniciar o projeto. O valor foi gasto basicamente com uma pequena reforma e o mobiliário da casa.

O grosso do faturamento, que foi de 380 mil reais em 2018, veio da sublocação das salas para os demais profissionais de saúde. Com contratos mínimos de seis meses, eles podem escolher o número de dias por semana e o período — manhã ou tarde — para ocupar determinado espaço.

Além de consultas, o espaço oferece cursos, workshops e grupos de apoio para famílias. São, em média, 30 eventos por mês (foto: Ju Vasconcelos).

Para os que já fazem parte do grupo de profissionais da casa, existe a possibilidade de alugar horário avulso. Há uma sala reservada para isso, basta ligar e marcar. Nesse caso a cobrança é por hora.

No início, Vânia alugou apenas a casa térrea principal, sem a edícula de dois andares do fundo, que tinha entrada independente e onde funcionava a escola de inglês da filha do proprietário. Quando ele ofereceu se a pediatra queria assumir o restante do espaço, ela hesitou.

“Antes de dar esse salto, chamei um consultor de plano de negócios. Ele fez uma conta e vi que valia a pena alugar o restante, pois seriam mais três salas”, diz Vânia.

Um dos passos importantes que o consultor financeiro ajudou Vânia a dar foi ver o valor no negócio que ela já havia criado até ali. “Fiquei relutante para entender isso. Mas ele me convenceu de que a Lumos havia crescido, que eu tinha que me orgulhar da minha ideia e ver que ela já tinha um novo valor.” Foi assim que, no ano passado, a empreendedora reajustou os alugueis da sala em torno de 30%.

Vânia conta que, volta e meia, pessoas ligam querendo visitar o espaço para entender o modelo de funcionamento; alguns até perguntam sobre franquias — o que ainda não está nos seus planos. Mas, para quem cogita a ideia, ela já tem um conselho:

“Lembre que se for abrir um espaço assim, você vai virar um empresário. Pois eu mesma não me toquei de que isso seria mais uma coisa na minha vida. Além das consultas e acompanhamentos de parto, tenho que dedicar um período para pensar no negócio”

Hoje, ela atende pacientes às segundas, quartas e quintas-feiras. Nas terças à tarde, faz o ambulatório de amamentação, oferecido pelo espaço. Já as manhãs de terça e as sextas-feiras são reservadas para atuar como empreendedora na gestão do negócio.

Até agora, todo o lucro da Lumos foi reinvestido no projeto, como a compra de um sistema de prontuário eletrônico e o lançamento do site. A pediatra pretende fazer sua primeira retirada até o fim de 2019. “Hoje, quando olho para trás, fico orgulhosa. Primeiro porque a casa não fechou. Segundo, porque está crescendo.”

A Lumos conta atualmente com seis funcionários, sendo cinco mulheres. Vânia diz que a chave para dar certo foi aprender a delegar. Ou, na analogia pediátrica, deixar a criança se virar sozinha. “Com dois anos e meio desde o nascimento, a ‘cria’ já está andando, falando melhor, pegando sua própria banana na fruteira. Fome não passa”, brinca a pediatra-empresária, satisfeita de ver o seu negócio se desenvolver com saúde.

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